Saúde mental · Edição 16, p. 66
Saúde mental na era do celular: quando a conexão vira excesso
Vivemos em uma época em que o celular está presente praticamente em todos os momentos da nossa vida. Ele facilita a comunicação, o trabalho, os estudos e o acesso à informação.
Vivemos em uma época em que o celular está presente praticamente em todos os momentos da nossa vida. Ele facilita a comunicação, o trabalho, os estudos e o acesso à informação. Porém, quando seu uso se torna excessivo ou difícil de controlar, pode começar a interferir no sono, nas relações familiares, nos estudos, no trabalho e no bem -estar emocional.
O problema não está simplesmente em passar muitas horas diante da tela. É preciso observar como, por que e para que estamos utilizando o celular. Uma pessoa pode passar bastante tempo conectada para estudar ou trabalhar sem que isso represente necessariamente um problema. Por outro lado, quando o indivíduo sente necessidade constante de verificar o aparelho, não consegue se desconectar ou abandona atividades importantes para permanecer conectado, temos sinais que merecem atenção.
Entre crianças e adolescentes, essa questão se torna ainda mais importante. O uso problemático de redes sociais tem sido associado a dificuldades relacionadas ao sono e ao bem-estar emocional. Isso não significa dizer que o celular, sozinho, cause depressão, ansiedade ou outros transtornos. A saúde mental é resultado de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos, familiares e sociais. Em alguns casos, inclusive, pode ocorrer o contrário: uma pessoa que já está enfrentando sofrimento emocional pode buscar cada vez mais o celular e as redes sociais como forma de fugir ou aliviar aquilo que está sentindo. Assim, o uso excessivo pode ser consequência e, ao mesmo tempo, contribuir para a manutenção do sofrimento.
Por isso, precisamos olhar além do número de horas diante da tela. Algumas atitudes simples podem ajudar:
•Estabelecer momentos do dia sem celular; •Evitar o aparelho durante as refeições e conversas; •Reduzir o uso próximo ao horário de dormir; •Manter o quarto, especialmente à noite, livre de telas; •Incentivar atividades físicas, leitura, brincadeiras e convivência presencial; •Conversar com crianças e adolescentes sobre os conteúdos que consomem; •Procurar ajuda profissional quando o uso estiver causando sofrimento ou prejuízos na vida cotidiana.
Dr. Saidi Raidan
Não precisamos declarar guerra à tecnologia. Precisamos aprender a utilizá-la com equilíbrio.
A saúde mental também depende daquilo que acontece longe das telas: uma conversa, um abraço, uma caminhada, uma brincadeira, uma escuta atenta e a presença verdadeira de alguém. Talvez o grande desafio da nossa época não seja aprender a viver sem tecnologia, mas aprender a utilizá-la sem permitir que ela determine como vivemos. Como profissional da educação e da Psicanálise, acredito que família, escola e profissionais de saúde precisam participar dessa conversa. Mais do que simplesmente retirar o celular das mãos de crianças e adolescentes, precisamos ajudá-los a compreender seus sentimentos, limites, escolhas e responsabilidades.
Cuidar da saúde mental também é aprender a se desconectar para voltar a se conectar com aquilo que realmente importa: nós mesmos e as pessoas ao nosso redor.
Dr. Saidi Raidan
Psicanalista, educador e profissional dedicado à saúde mental, ao desenvolvimento humano e à educação.


