Autocoleta para pesquisa de HPV: mais acesso ao rastreamento, mais oportunidades de prevenção
O rastreamento do câncer do colo do útero passa por sua maior mudança em décadas.
O rastreamento do câncer do colo do útero passa por sua maior mudança em décadas. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao Sistema Único de Saúde o teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico como método primário de rastreamento. Em 2025, foram publicadas as novas diretrizes brasileiras para sua implementação.
O novo modelo mantém o rastreamento para mulheres de 25 a 64 anos que já iniciaram a vida sexual e estabelece o intervalo de cinco anos entre os testes quando o resultado é negativo. A citologia, conhecida como Papanicolau, deixa de ser o exame inicial nesse modelo e passa a ter papel complementar na avaliação de determinados resultados positivos.
Dentro dessa transição, a autocoleta ginecológica ganha espaço como uma estratégia significativa para ampliar o acesso ao rastreamento. Nela, a própria mulher coleta uma amostra vaginal, sem necessidade do uso de espéculo, utilizando um dispositivo desenvolvido para essa finalidade. Depois, o material é encaminhado ao laboratório para a pesquisa molecular do HPV.
Um dos dispositivos disponíveis no Brasil é o Coari, desenvolvido em 2015 e batizado em referência ao município amazonense onde foi realizado um dos primeiros estudos brasileiros sobre autocoleta. A iniciativa envolveu mulheres que enfrentavam importantes dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
A coleta é simples, rápida, geralmente indolor e pode ser feita em ambiente reservado, preservando a privacidade da mulher.
“A autocoleta ajuda a resolver um problema que acontece antes mesmo da consulta: alcançar a mulher que, por diferentes razões, não realiza o rastreamento de rotina”, explica a Dra. Gisele Lumy Iguma.
Entre as barreiras estão a falta de tempo, a distância dos serviços, a dificuldade de agendamento, experiências anteriores desconfortáveis, constrangimento em relação ao exame com espéculo, entre outros motivos. As diretrizes brasileiras reconhecem a autocoleta como uma alternativa especialmente importante nessas situações, e as evidências mostram que sua oferta pode aumentar de maneira significativa a adesão ao rastreamento.
A segurança da estratégia está relacionada ao método utilizado. Como o teste molecular identifica o DNA do HPV, a amostra vaginal coletada pela própria mulher apresenta desempenho adequado quando analisada por testes validados para essa finalidade.
A citologia é diferente: sua análise depende de células obtidas diretamente do colo do útero por um profissional de saúde.
É importante deixar claro que a autocoleta não substitui a consulta ginecológica. Ela contempla uma etapa específica do cuidado: a obtenção da amostra para a pesquisa do HPV oncogênico. A avaliação clínica, o exame das mamas, a investigação de sintomas e o acompanhamento de outras condições ginecológicas continuam dependendo da consulta médica.
“A autocoleta amplia o acesso ao rastreamento, mas o cuidado com a saúde da mulher é mais amplo e continua exigindo acompanhamento profissional”, ressalta a especialista.
Também é necessário diferenciar rastreamento de investigação diagnóstica. O rastreamento é destinado a mulheres sem sintomas. Sangramento vaginal anormal, dor pélvica, dor durante a relação sexual ou corrimento persistente precisam ser avaliados pelo ginecologista, independentemente do resultado de um teste de HPV.
O cuidado não termina com o resultado
Quando o teste detecta HPV dos tipos 16 ou 18, associados a maior risco de desenvolvimento de lesões precursoras e câncer, a recomendação é encaminhar a paciente diretamente para a colposcopia. Nos resultados positivos para outros tipos oncogênicos, é indicada a realização da citologia de triagem. Se houver alteração citológica, a mulher também deverá ser encaminhada à colposcopia. Quando a citologia não apresenta alterações, o teste de DNA-HPV deve ser repetido em 12 meses.
Nos casos de autocoleta, a paciente deverá retornar para que uma nova amostra seja obtida por um profissional de saúde sempre que houver indicação de citologia. É nesse ponto que a organização dos processos se torna fundamental. A implantação da autocoleta exige orientação adequada, identificação e rastreabilidade da amostra, estrutura laboratorial preparada e um fluxo definido para a realização da citologia, da colposcopia e do acompanhamento dos resultados positivos. Sem esse encadeamento, o avanço obtido no acesso pode se perder nas etapas seguintes.
“A autocoleta abre uma nova porta de entrada para o rastreamento. Para que ela cumpra seu papel, é indispensável garantir todo o cuidado que vem depois”, resume a Dra. Gisele.
Com 51 anos de atuação e acreditação pelo Programa de Acreditação e Controle da Qualidade da Sociedade Brasileira de Patologia (PACQ/SBP), o LA PAC disponibiliza a autocoleta para pesquisa do HPV em Dourados, Ponta Porã e Região. A estratégia integra o teste molecular à estrutura de citopatologia e anatomia patológica do laboratório, permitindo o acompanhamento das diferentes etapas da investigação.
A autocoleta e as novas estratégias de prevenção do câncer do colo do útero estarão entre os temas do 3º Simpósio de Patologia do Trato Genital Inferior, promovido pelo LAPAC com o apoio do IPOG Lab. O evento será realizado em novembro, em Dourados.
Médica patologista Diretora técnica médica e Gestora do LAPAC


